terça-feira, 31 de maio de 2011

Etapa 3 - Torremejia - Caceres


91km - 780m acumulado

A noite foi passada...ao som de uns belos roncares de outros peregrinos, que nos impossibilitaram de repousar completamente do dia anterior.

O dia amanheceu com bastante nevoeiro, o que nos obrigou no decorrer dos primeiros km's, a usar as luzes reflectoras de presença.

O inicio do Caminho parecia prometedor e lá fomos com todas as ganas para cima da terra...
Poucos metros tinhamos percorrido no Caminho, quando o barro nos pregou a partida que nunca queriamos. Aderiu aos pneus com força tal que quase nos afundamos...No fundo, foram 5 minutos a entrar no Caminho...e 45 para sair dele.

Fomos obrigados a trabalhos forçados para arrancar todo o barro das bicicletas, e só em Merida conseguimos dar uma bela banhoca às ditas.




A visita a Merida confirmou as nossas expectativas uma vez que se trata de uma cidade histórica e considerada a capital da Via da Prata.

Perante tamanho deslumbramento, acabamos por nos esquecer de um pormenor muito importante: carimbar a credencial em Merida...Ficamos inconsoláveis...

Depois de Merida e até Valedesalor, optamos por efectuar o Caminho por estrada, uma vez que ainda conseguiamos ver o barro em partes do percurso do caminho.

Os últimos 14 km, voltamos a entrar no caminho e fazer este percurso em terreno seco e satisfazer o gosto de voltar a pisar a terra...sem barro!!

Ave Caceres !!!

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Etapa 2 - El Real de la Jara - Torremejia

123km - 900m acumulado

O dia começou nublado e a chuva depressa se fez sentir.
Por coincidencia ou nao, paramos para tomar o pequeno almoço e a chuva abrandou.

Iria ser o dia da chuva...

Estavamos avisados que em caso de chuva, e como o terreno é muito barroso, poderiamos ter grandes dificuldades de progressao. A alternativa é percorrer o Caminho por estrada, que em muito pontos fica a 1m da estrada.
Assim fizemos...e foi a melhor opção.

Fomos avançando pelo Caminho sempre ladeado olivais, vinhas e até paineis solares...


Na chegada a Zafra, uma primeira tempestade estava prestes a rebentar...apenas tivemos tempo de sair da estrada e abrigar-nos numa oficina de pneus. Aqui, esperamos até que a chuva passasse.

Aproveitamos esta pausa, e optamos por outra solução para o almoço...o Lidl estava ali bem perto e lá fomos fazer as compras para o repasto. O S.Pedro permitiu-nos um piquenique ao ar livre.

Como o andamento estava a ser bastante forte, pusemos a ideia de ir ficar a Merida. No entanto, a partir de Almendralejo, uma familia bem escura de nuvens aproximava-se cada mais de nós. Ainda tentamos fugir mas não foi possivel.




Os últimos 10km foram verdadeiramente molhados...um verdadeiro dilúvio que deu para ficarmos literalmente ensopados. Nunca tinhamos ficado assim.


O albergue estava proximo e em Torremejia e com excelentes condiçoes que nos permitiu tomar um bom duche e descansar desta longa jornada. Merida fica para amanhã.


Depois da tempestade veio a bonança e no final do dia ainda deu para colocar a roupa a secar.



Esperamos que as tormentas acalmem para prosseguirmos rumo a Santiago.

Etapa 1 - Sevilha - El Real de la Jara



83 km - 1450m acumulado


Chegou finalmente o dia...


E que dia...vai ser dificil descrevê-lo por palavras..mas vamos tentar.

O tiro de partida foi dado pelo nosso amigo Sousa, que foi ter connosco ao albergue por voltas das 06:15, e onde se despediu de nós e tirou algumas fotos no momento zero.





De seguida, fomos directos à Catedral para a foto da praxe e dar início oficial à Via da Prata.

Vamos ter que filtrar algumas destas fotos, dado que o fotógrafo de serviço estava com demasiado alcool no sangue. :) Mas o que é certo que é que acertou no botão de disparo..

Mesmo à saída de Sevilha, paramos para admirar e registar fotograficamente o marco dos 1000km..

Fomo-nos afastando da cidade e desembrulhando o caminho, pelas localidades de Camas, Santiponce. Entre Santiponce e Guilhena, mergulhamos na terra e demos início a uma das mais belas etapas que percorremos.

Campos repletos de girassóis foram a nossa companhia durante uma dezena de km's.

O dia, e ao contrário do que estavamos à espera, estava magnifico para a practica do BTT, e pudemos disfrutar de toda esta beleza.


Após Castilblanco de los Arroyos, o caminho era comum com a estrada nacional (num carrosel de subidas e descidas em asfalto), com a vantagem de o transito ser muito reduzido.

Entramos no parque do Berrocal e aqui percorremos 17km de uma paisagem absolutamente fantástica, até Almaden de la Plata. O percurso fabuloso e onde tivemos o primeiro contacto com os animais à solta...




Depois, bem, depois veio o Calvário...na verdade definição da palavra. Uma parede com 2km de extensão que nos obrigou a uma dose de esforço redobrada. É que tinhamos o atrelado para carregar...

Chegados ao cume, a vista era divinal e todo o espaço em 360 graus estava ao alcance da nossa vista: sentimo-nos com a visão de um pássaro.

Como normalmente após uma subida vem uma descida, assim foi. Iniciamos um novo calvário...

A descia era muito íngreme, cheias de pedras e valas profundas que nos obrigaram a redobrado cuidado. Nunca demoramos tanto a descer...

Os últimos 20km foram para atravessar várias herdades dividas por cancelas que tinhamos que abrir e voltar fechar, para que os animais não fugissem. Atravessamos várias linhas de água e percorremos alguns km bem junto de animais como vacas, porcos, ovelhas, touros, cavalos e muitos pássaros...

Cumprimos o planificado e tivemos direito a um verdadeiro dia de BTT.




Já deu para perceber que este caminho tem uma beleza ímpar...mas muito duro!

Cada etapa percorrida é uma vitória e esta já conseguimos.

sábado, 28 de maio de 2011

Hola Sevilla!

Chegou finalmente o dia...

Partida do Porto eram 07:30 a bordo de um Volvo S60, comandado pelo General Sousa e sua comissária de bordo Fátima.
Viagem tranquila, com direito a serviço de bordo de maças, queijadas e bebidas. Um luxo!

Pausa técnica em Zafra para umas tapas e relaxamento de pernas.

Chegada a Sevilha pelas 15:30 e sob um sol abrasador de 32ºc...Esperemos que amanhã esteja mais fresco...

Check-in no albergue e a primeira dificuldade...obter credencial personalizada da Via da Prata...

Infelizmente, estavam esgotadas e ainda percorremos Sevilha à procura da dita credencial.

Tivemos que nos conformar com uma credencial com o percurso do Caminho Francês.

Chegou a hora de repor energias e jantamos numa bela terraza, com direito a futebol e procissão.









Preparação da primeira etapa de amanhã, com equipamento preparado para sair bem cedo e aproveitar a frescura da manhã.

A estratégia deverá passar por pedalar o mais possível durante a manhã e retomar ao final da tarde, até que o sol nos permita.

O calor não vai dar tréguas !

Amanhã começa a nossa Via !

domingo, 22 de maio de 2011

Peregrino

"Mundo inquietante, mundo fascinante. Este espaço (tempo) vive de caminhar. Faz-se caminho assim. Esperando que alguma parte da beleza do mundo aqui se guarde, fugaz. E que o Peregrino, mesmo cansado, inquieto sempre,possa ser dos que seguem o caminho mais incerto e mais belo, mesmo que o horizonte seja longínquo. Por onde se encontra a senda da beleza do mundo, que se perde na rotina e na banalidade". (Texto recolhido na net)

Ser Peregrino é estar desperto para o que nos rodeia e disponível para ser solidário.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Um Caminho com 3000 anos...

A Via de La Plata (ou Caminho Mozárabe) é o caminho Jacobeu de maior extensão, sendo aquele em que se percorre mais quilómetros. Passa pelas Províncias de Sevilha, Extremadura, Salamanca, Zamora, Ourense, Pontevedra e Coruña, atravessando espaços naturais de grande beleza, com um rico património cultural e ecológico.

Esta rota é uma extensão natural do que antigamente foi a estrada romana que liga Mérida e Astorga, cruzando o oeste da Península Ibérica, do sul ao norte com as bacias dos rios Tejo, Douro, Minho.

Actualmente, a Via da Prata é uma das principais vias de comunicação do ocidente espanhol.

Tem o seu início em Sevilha e continua para o norte através das comunidades da Extremadura, Castilla e León dirigindo-se finalmente para Salamanca e Zamora. Após a chegada a esta cidade, o peregrino pode continuar a Via de la Plata até Astorga e cruzar com o Caminho Francês em direcção a Santiago, ou optar por seguir pela Sanabria.


Esta variante é conhecida como Caminho Sanabrés, pois atravessa as terras de Sanabria, entrando na Galiza pela província de Ourense. A separação faz-se em Granja de Moreruela, uma pequena localidade castelhana a norte de Zamora.

Esta vai ser a nossa opção.

A origem histórica da Via da Prata é incerta.
No entanto, tudo parece ter começado com os “Tartessos”, uma das primeiras civilizações urbanas do ocidente a usar várias rotas comerciais na Península Ibérica. No ano 218 a. C a Espanha foi conquistada pelos romanos que utilizaram esses roteiros, em particular, a via romana, antecedente da Via de la Plata, para o deslocamento de tropas e comércio.

Reza a história que Octávio Augusto, nomeado Imperador em 25 a. C, mandou construir uma calçada que unisse Mérida (Emérita Augusta, capital da Província de Lusitânia) com o norte da Península, atravessando o leito dos rios Tejo e Douro, a fim de facilitar o transporte dos exércitos cuja missão era combater os bárbaros.

Esta Via chegou até Astorga (Asturica Augusta) e tinha mais de 500 quilómetros de extensão, sendo que, posteriormente, outros Imperadores, como Tibério e Trajano a ampliaram, em ambos os sentidos, até Sevilha e Gijón.

Com a queda do Império Romano, esses roteiros deixaram de ser utilizados, mas a invasão árabe do século VIII atingiu, inclusive, o noroeste da Península, culminando sua conquista com a queda de Santiago de Compostela, no ano 997. Os árabes batizaram-na então de Bal’latta (Blata), que significa “Caminho de Pedra”.

A Via da Prata, apesar de tudo, nunca foi um caminho de circulação de comércio de prata. Esta denominação deve-se, como em outras ocasiões, a uma evolução - e a esta confusão fonética, que soando a "plata", assim ficou o nome.

À medida que os cristãos iam reconquistando o território espanhol, restabeleceram-se as vias de peregrinação a Santiago, sendo que, por esta antiga calçada romana, iniciou-se uma verdadeira rota de peregrinação ao túmulo do Santo Apóstolo.

Depois da fantástica experiência do Caminho Francês, e já depois de termos concretizado o nosso Caminho Português, a Via da Prata é o nosso destino.

1000km separam-nos do nosso sonho.

De Sevilha partiremos, com a esperança de alcançar Santiago.


Ultreia !

O Desafio...

Após o Caminho Francês realizado em Jun/09, a Via da Prata surge como mais um desafio. O nosso permanente desejo de superação, a necessidade de reflexão espiritual, o contacto com a natureza, o gosto de percorrer longas distâncias num exercício de grande liberdade e autonomia, levam-nos desta vez a meter as nossas amadas pernas e as nossas ilusões no mais longo Caminho Jacobeo.
Percorreremos longas distâncias em cujos trajectos muitas vezes não teremos contacto humano, em que atravessaremos áreas de gado bravo e animais habituados a pouco contacto humano e em que os percursos diários rondarão muitas vezes os 100 km... obviamente estamos perfeitamente conscientes das dificuldades e da dimensão do desafio, mas a única coisa que como sempre nos atormenta é a saudade da família. Sem o seu precioso e incondicional patrocínio estas Peregrinações não seriam possíveis. Cada etapa vencida é uma conquista sempre partilhada.
O treino tem sido intenso, sempre com o apoio do Sousa e do Pedro que muito se têm esforçado por garantirem a nossa preparação. Também eles partem connosco, como não poderia deixar de ser, pois mesmo à distância tudo farão para que consigamos realizar mais este sonho.
A todos os que nos quiserem acompanhar através deste canal, agradecemos os generosos estímulos que certamente nos alimentarão a alma e fortalecerão esta vontade de percorrer um dos mais extraordinários Caminhos...“O Caminho das Estrelas”.

Ultreia!!!